Companhia de Caçadores 4740

Guiné - CUFAR - 1972 / 1974

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Memória do dia 1/1/74

 Há datas que nunca se esquecem

 Aqueles para quem a Guerra Nunca Acaba

 Cenoura estranho nome....

Palavras em Fátima

 Cufar Antes e Depois

 Do Outro lado do Cubijã

 Ceia de Digestão Difícil

O Meu 25 De Abril

 Assim Fui Tendo Fé

 Memórias de um tem...

 

 

MEMÓRIA DO DIA 1 DE JANEIRO DE 1974

Meus Caros Camaradas e Amigos

Lembram-se?

Foi mesmo assim.

Cufar, 1 de Janeiro de 1974

Chegou o ano da “peluda”!
Entrei pelo réveillon dentro ao som de milhares de tiros e rajadas de G 3.
O meu coronel ( o paraquedista João José Curado Leitão, do CAOP 1) havia dado ordens ao capitão da companhia  (C. Caç. 4740) dos açorianos e a toda a tropa de Cufar para que, ao chegar da meia-noite, ninguém disparasse um único tiro. Falou em dez dias de prisão para o energúmeno que tivesse a ousadia de pegar na espingarda e fizesse fogo.

À meia-noite menos dez começou o fogachal. Os açorianos saíram das suas tabancas às dezenas, armados, com as G 3 apontadas para o céu e vá de despejar carregadores após carregadores. Ao soar das doze badaladas – que ninguém ouviu até porque não soaram badaladas nenhumas, tínhamos apenas o matraquear constante das armas ligeiras que quase levantavam Cufar do chão. Uma festa! Por todo o lado, havia tiros à solta. Os rapazes, bêbados, tontos de desvairo, não disparavam apenas para o ar. 1974 também é para eles o ano da “peluda” e quase se podiam ver balas cruzadas a rasar as nossas cabeças. Felizmente ninguém foi atingido. O meu coronel manteve-se quietinho no seu quarto, ninguém deu por ele.

Se as bebedeiras são o pão nosso de cada dia, neste fim do ano foi demais. Eu também ando a beber mais do que devo, é fácil uma pessoa enfrascar-se e vou explicar como é, basta contabilizar a rotina do dia. Ao almoço, ao meio-dia, o pobre repasto é acompanhado com vinho, às quatro da tarde, por causa do calor, bebe-se uma cerveja, às sete, ao jantar, marcha mais meio litro de vinho, depois enfia-se um café e uma aguardente, às nove ou dez, há petisco, por exemplo umas chouriças assadas, bebem-se mais umas cervejas e no fim, para atestar, sorvem-se lentamente uns copos de whisky.

Chegou 1974. É a sequência irreversível dos dias. Em breve partirei, estes açorianos regressarão igualmente a casa, outros rapazes oriundos dos quatro cantos de Portugal virão para a Guiné. Até quando?

António Graça de Abreu
alf. mil CAOP 1

O

“ HÁ DATAS QUE NUNCA SE ESQUECEM ”

Faz amanhã, dia 23 de Dezembro, pelas 19H30, 39 anos que o 2º Grupo de Combate a sair do Quartel para montar uma emboscada sentiu cair a pouco mais de 40 metros 9 mísseis que encheram a pista de aviação de estilhaços e nos colocou a todos muito próximo do fim.

Deus entendeu estender a sua Mão protetora sobre as nossas cabeças e hoje, recordando essas horas de aflição, elevamos ao Menino Jesus uma oração singela de agradecimento.

Falei, entre hoje e ontem, com os elementos do 2º Grupo de Combate residentes nos Açores – Rosa, Simas, Pamplona, Linhares, Correia, Félix, Braga, Zé da Silva e o Braga Moura.

Por entre a névoa do tempo esta memória continua viva. Mas, sobretudo, continua viva a estima, a amizade, a ternura e, não tenhamos medo das palavras, o Amor que une este grupo de velhotes que já tiveram vinte anos! E a que se juntam, sem nenhuma dúvida, os outros que os ventos da vida espalharam pelo mundo – Aguiar, Martins, Frias, Xavier, Moniz, Rogério, Resende, Novo, Soares, Moreira, Raposo, Freitas, Melo, Eira , Alexandre, Costa. E ainda aqueles que Deus já chamou para junto de si – Borba, Cordeiro, Maurício, Maciel.

 Parede, 22 de Dezembro de 2011.

 António Zêzere

 

 
 

Visita aos Açores 2011

Reencontros, encontros e desencontros!

Fotos do evento

Depois de um sobressalto com a minha máquina “coração”, após o nosso encontro em Fátima, que se dispunha a querer abrandar o ritmo ou, quiçá, faze-lo mesmo parar, reparada que foi em tempo oportuno a 13-07-11, cá me deixei convencer pelos filhos e aceitar a sua oferta, revisitar a nossa Terra, os Açores de minha alma.

O local escolhido tinha que ser para descanso, essa era á partida a condição imposta e nesse contexto nada melhor que o Faial, para cumprir a tradição Açoriana que reza assim, “S. Miguel para trabalhar, a Terceira para bailar e o Faial para descansar”, foi fazer a mala e meter pés ao caminho que o HOMEM da Terra já lá estava com a família á nossa espera.

Reencontrado o HOMEM da Terra, o José Adelino Goulart da Rosa e da sua (nossa) família, aqueles que foram dotados de um enorme coração e grandeza de alma, foi instalarmo-nos no repouso que nos havia reservado e esperar que o tempo decorresse pachorrentamente para que o objectivo fosse alcançado, esperar que o José Maria regressa-se das suas vindimas no Pico e fechar o ciclo dos reencontros no Faial, pois, o José da Silva tinha vindo de véspera para Lisboa.

Encontro casual com a sempre e pronta colaboração do nosso amigo Salvador, que da Holanda me informou da presença do nosso companheiro Leonel Rodrigues, estava na Horta, não onde se cultivam os tomates e as alfaces, mas a Horta, Faial para onde viajou das Flores a uma consulta médica no Hospital e aconteceu uma história digna de menção; o nosso amigo Leonel sem nos apercebermos jantou junto a mim, estava eu com minha mulher a jantar e já perto do fim entrou ele no restaurante para tratar do mesmo, não sei como mas pressenti que algo me dizia aquela cara não ser de todo estranha, mas ele sentou-se na mesa atrás da nossa e ficou de costas, não dei mais atenção, não era possível e continuei a conversa, demos o nosso jantar por terminado e saímos, quando estávamos na esplanada junto da marina a tomar o nosso café liga o Salvador da Holanda a informar a presença do Leonel, liguei-lhe a saber onde estava, resposta pronta, estou nas Angustias, também eu respondi, afinal estávamos a escassos 500 metros, fui de imediato ao seu encontro e qual o nosso espanto, já nos havíamos encontrado, seguiu-se novo encontro no dia seguinte já com o Goulart da Rosa conforme se pode ver pela foto e um jantar a três para despedida, escolhido que foi o mesmo restaurante, ele regressou ás Flores na manha seguinte.

Desencontro, foi o que aconteceu com o José da Silva, mas esse por uma boa causa, tinha vindo a Lisboa afim de ser operado e como sabem tudo correu bem e neste momento em que escrevo estas linhas, 23h30 de Domingo 09-10-11, já falei com ele na sua casa nos Cedros, Faial onde se encontra junto dos seus mais próximos, ficou a saudade de um abraço por dar, não de uma visita por fazer, essa a outros coube tal função na sua permanência na Capital, mas não deixei de ir á sua Terra em dia de festa rezar ao “seu” Santo António pela sua recuperação que com a Graça de Deus e a ajuda da sua enfermeira Amélia se fará pelo melhor, tenho fé.

No período da sua estada no hospital foi mantido o contacto diário a partir da Horta pelo José Adelino Goulart da Rosa e pelos restantes que por lá permaneciam.

Novos reencontros em S. Miguel, como tinha escala de ligação ao Porto em Ponta Delgada com tempo bastante para uma breve visita, deleguei no Pedro Jorge Sousa Rego (batatinha) que viesse ao meu encontro, me conduzisse aos Arrifes ver o Abel Raposo, o João Luís Pereira Soares ao saber da minha presença, juntou-se a nós e foi carregada de muita emoção esta visita surpresa para o Abel, mas ao mesmo tempo de muita alegria, encontrei um Abel rodeado do maior carinho e abnegação por parte da esposa, filhas, família e vizinhos; e repito aqui o que lhe disse, tenho fé e esperança de um dia o poder visitar noutras circunstâncias, Deus tem muito para fazer e não se esquecerá de um homem bom como aquele Abel que todos conhecemos, afinal ele tem a seu lado um dos sorrisos mais bonitos que eu conheci em toda a minha vida, a sua menina Carolina.

As poucas fotos anexas dizem o resto do que foi esta visita pela nossa Terra e a nossa gente, deixarei para outra oportunidade descrição mais ao pormenor caso assim o entendam, ou então é só darem um toque para o meu telemóvel e eu, como sempre, estabeleço a ligação e aí falaremos o tempo que cada um quiser ou esteja disposto a escutar as historias do Faria e da sua viagem, até lá vai daqui um grande abraço para todos e um grande obrigado aqueles que nos receberam, nunca encontrarei palavras bastantes para o fazer, espero-vos a todos a qualquer momento no Norte ou em Fátima a 16 Junho 2012.

 

Pedroso, 09 Outubro 2011 – Armando Faria

 

Memórias de um tempo que teima em não me abandonar.

Hoje, 05 Agosto 2010, ao ler um artigo publicado no JN (Jornal de Noticias) sobre a questão da qualidade da água na Guiné que começa assim: “A Guiné-Bissau morre pela boca”, veio-me à memória o dia 06 de Janeiro de 1974 quando ao atravessar a mata do Cantanhes, algures entre Cadique e Jemberem, já depois de uma longa caminhada atravessando bolanhas que começou com o nascer do dia, íamos nós, digo nós pois tratava-se daquela operação a que fomos chamados e onde viemos a sofrer uma emboscada no dia 07 Janeiro junto ao pontão da estrada Cadique Jemberem.
Mas, como ia dizendo, veio-me à memoria a tarde daquele dia em que sequiosos e já de cantis vazios num quase torpor pela fadiga e a sede, no meio do nada em lugar que não sei identificar (hoje visto do Satélite parece-me ser na zona de Cadique Nalu) eis que surge o rosto de uma mulher segurando nas mãos uma cabaça cheia de água fresca que havia recolhido e nos era oferecida.
Abençoada seja, dei graças a Deus pela gentil oferta vinda de alguém que se encontrava a viver numa zona IN, que seria de toda a segurança que tivéssemos recusado, mas a nossa sede já não nos permitia qualquer acto de sensatez e depois os olhos daquela mulher não nos ofereciam razão para temer.
Muitas vezes tenho falado deste encontro com a sede e da forma como a mesma foi ultrapassada e quem me tem ouvido sabe como é meu costume descrever, não foi em vão que tudo passou nem é o acaso que dele me faz falar.
Digo como sempre, nunca bebi água melhor e mais fresca do que aquela que ali nos foi oferecida naquele meio do nada onde hoje gostaria de poder voltar para apreciar a beleza das suas matas e a imensidão das suas bolanhas de arroz onde os pássaros esvoaçam aos milhares, nem o cheiro que da vasilha emanava me abandona a memória, havia aquele cheiro forte que nos indicava o uso do vasilhame, mas a sede, essa coisa que faz perder o Norte e abandonar a alma ao Criador não nos permitia outros luxos, a escolha estava ali traçada, aqueles que nos haviam mandado para lugares tão inóspitos e perigos à espreita, esses estavam algures em salas onde o ar condicionado não parava e onde a água era, ou a tónica com gin, ou a loura e fresca algures da fonte de Leça do Balio ou outra do género.
E hoje, para mal dos meus muitos pecados, recordo esse dia e mais uma vez peço ao Criador a Bênção para essa mulher que correndo os riscos de vir a ser castigada, não esqueçamos que estávamos em zona IN, não olhou ao risco e ofereceu o que melhor alguém pode dar, a vida, pois que é a água senão a fonte da vida?
Obrigado “mulher” que não sabendo o teu nome permitiste que hoje te pudesse recordar e por ti fazer uma Oração ao meu Deus por tão nobre gesto.
Como seria bem melhor o Mundo se todos fossemos como tu generosa e gentil mulher, não sabes nem podias imaginar que com o teu gesto salvaste do suplício da sede mais de uma centena de homens que puderam por isso voltar ao “seu” Mundo.

Armando Faria, Ex. Fur. Mil. CCAÇ4740

Pedroso, Agosto de 2010

 

 

“CENOURA”

Estranho nome para herói

  Nunca imaginei que uma memória com quase quarenta anos, a memória dum Amigo de quem nem o nome sabia e que vivia no meu íntimo e nos meus afectos sob o pseudónimo de “Cenoura” por virtude do seu cabelo quase vermelho, havia de provocar a confusão que gerou.
  No almoço da Companhia 4740, em 19 de Junho do ano em curso entendi, em nome pessoal, “louvar” dois antigos camaradas: Marcelino da Mata, Alferes graduado e o “Cenoura” de quem desconhecia o nome. Sabia ser Furriel Piloto da Força Aérea, ter estado em Cufar muitas vezes durante o dia, fazendo segurança com os aviões, ter uma forma de estar cativante e um ar de menino porventura aumentado pela invulgar cor do cabelo. Também sabia que havia sido abatido por um míssil Strella em Abril de 1973. No início da vida ela, essa vida, tinha sido, como tantas outras, barbaramente ceifada.
  A confusão começou com a sempre presente boa vontade e diligência do Furriel Faria aliada a um coração tamanho do mundo, também ele amigo do “Cenoura”:
- Já sei quem é o “Cenoura”! É o Furriel Piloto António Carvalho Ferreira, natural de Paços de Ferreira e abatido na Guiné a bordo de uma DO-27 no dia 6 de Abril de 1973.
Em vários sítios da internet foi possível recortar boa parte desta informação. Mas a verdade é que os serviços do Registo Civil de Paços de Ferreira não conseguiam encontrar, num período de busca alargado e com uma boa vontade sem limites, nem o nascimento nem o óbito do Ferreira.
Os arquivos dos serviços militares consultados também não puderam dar, na oportunidade, resposta às dúvidas.
  Factos incontroversos não havia um que fosse. Apenas indícios, probabilidades, aproximações.
E, sob dúvidas, foi acrescentado um apêndice ao texto lido em Fátima admitindo a possibilidade do “Cenoura” poder ser o Fur.Pilav António Carvalho Ferreira.
  De repente surge outro nome, vindo das buscas do Fur. Oliveira: Baltazar da Silva. Era Furriel Piloto, tinha sido abatido na Guiné, no mesmo fatídico dia 6 de Abril de 1973, também pilotava uma DO-27 e, em escrito inserto na internet sob responsabilidade do ex-alferes Abreu, aparece descrito como um rapaz alto, de cabelo encaracolado e muito ruivo.
Perante esta última circunstância só a improvável existência de dois ruivos, ambos Furriéis, ao mesmo tempo Pilotos na BA 12, abatidos no mesmo dia podia levar a supor que o “Cenoura” não fosse o JOÃO MANUEL BALTAZAR DA SILVA.
  O avião do malogrado Baltazar da Silva foi localizado e os corpos recuperados. O camarada que transportou os corpos para Bissau, Victor Barata, refere esse facto com chocante emoção num escrito dum conhecido e reputado blogue - Luís Graça.
  Entretanto o Arquivo Central da Força Aérea deslinda com perícia a questão do Furriel Ferreira. O seu nome completo é Fernando António Carvalho Ferreira, havia sido dado como desaparecido em combate e, por decisão de 5 de Novembro de 1984, foi declarado o óbito e o correspondente registo lançado na Conservatória dos Registos Centrais.
  De todo o modo apenas parece existir uma forma equilibrada e, sobretudo, justa de encerrar este assunto: Os Heróis passam a ser dois, Carvalho Ferreira e Baltazar Silva. Dois quase-meninos, ao serviço de Portugal, deixaram no inicio de Abril de 1973 as suas vidas na Guiné, tripulando as suas DO-27. Os que com eles lidaram, agora no limiar da velhice, podem deixar rolar a lágrima guardada por quase quarenta anos e, se tiverem fé, pedir a Deus que tenha a Mão sobre aqueles camaradas . Os nossos Heróis merecem tudo, sobretudo o nosso eterno respeito! Por eles e pelas Famílias que os perderam. E, afinal, por todos nós…

                      António Zêzere, Parede, Agosto 2010.

 

PALAVRAS EM FÁTIMA NA REUNIÃO DE 19.06.2010

   Extracto de um escrito “Camaradas & Irmãos de Cufar”

……. O pouco que havia era partilhado. E havia realmente muito pouco. Nos primeiros meses os oficiais e sargentos não podiam tomar as refeições todos ao mesmo tempo. Pela prosaica razão de que não havia pratos e talheres para todos. Passavam-se semanas sem um fresco na alimentação. E chegamos a ter para comer arroz e marmelada. Foi ocasional mas sucedeu.

Terão existido momentos moral e eticamente reprováveis nas relações entre pessoas diferentes. Chegou-se mesmo a extremos de agressividade. Afinal não era impunemente que se viviam dois anos em permanente tensão. Mas não são os picos negativos que relevam. O importante são outros sentimentos bem diferentes que nasceram naquele caldo de cultura que parecia só poder alimentar desgraças.

É aquilo o que leva milhares e milhares de ex-militares, ricos e pobres, doentes e saudáveis, de esquerda e de direita, benfiquistas e sportinguistas, intelectuais e analfabetos, brancos e negros, a juntarem-se a cada ano em memória de dois anos que deviam ser mas não são, exclusivamente matizados de sofrimento e horror. Não vão pedir nada. Não esperam por nada. Vão só ver os Amigos, beber juntos uma cerveja, recordar outro Amigo já partido, chorar em conjunto e sem palavras uma lágrima em memória de si próprios, saborear um abraço com a força e a ternura da amizade em estado puro. Não vão ganhar ajudas de custo nem são transportados por autocarros disponibilizados. A muitos custa mesmo pagar o almoço sempre escolhido, por razões óbvias, em espaços adequados.

Mas vão. Vão sempre.

 A hemodiálise limpa o sangue. Aqueles encontros limpam a alma. Ainda bem que é tratamento não comparticipado… 

Por isso nos incomodam os aproveitamentos políticos dos movimentos de combatentes e nos desagradam alguns pedidos que camaradas, uma vez por outra, aproveitam para fazer. Perante o que temos visto acho que só existe uma solução. Enquanto veteranos não queremos nada com partidos e com políticos. As nossas relações são com a nossa consciência e com Portugal. Com a nossa consciência qualquer dívida se extingue, nos termos da lei civil, por confusão. Com Portugal não negociamos e, logo, não podem existir dívidas.

O respeito não se pede exige-se!

Treze anos de Guerra…centenas de milhares de combatentes…milhares e milhares de mortos…dezenas de milhares de feridos…

Portugal não ensina nas Escolas o nome de um único Herói desta guerra. É espantoso, inverosímil e vergonhoso. E faz-nos doer fundo.

Mas eu arranjo já dois e os meus Camaradas de todos os teatros de operações  indicarão, sem dificuldade, mais umas boas centenas ou milhares.

- Marcelino da Mata, Sargento Rodoviário, graduado em Alferes – Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Quatro Cruzes de Guerra.

“Cenoura”, Furriel Piloto, menino de vinte anos, morto em combate na Guiné em Abril de 1973. Não sei se tem alguma condecoração. Nem sequer sei o seu nome. Mas é meu Herói

Honra aos dois!

Só para que conste o meu Herói e Amigo Marcelino esteve preso depois do 25 de Abril, no Forte Militar de Caxias, Reduto Norte. Esteve à ordem não se sabe de quem, acusado não se sabe de quê. Fui falar com ele a pedido de militares amigos em posições de responsabilidade. Apareceu-me impecavelmente fardado e com todas as condecorações.

Nada sabia de política mas intuía o que se passava. Nem uma queixa, nem um lamento. Só me fez um pedido, ou melhor, um alerta. A sua mulher estava, grávida, num andar em Queluz ou Amadora, já não posso precisar, sem falar português e sem ter meios de subsistência. Felizmente a situação pôde ser resolvida com alguma rapidez, por militares do quadro da mais fina água, como era a esmagadora maioria dos que tivemos o privilégio de conhecer. Mas a vergonha do acto perdura. É nódoa que não se apaga.     

O meu Avô materno, que Deus tem, integrou as tropas expedicionárias em Angola na I Guerra.

O meu Pai, que Deus tem, esteve em Cabo Verde, também nas tropas expedicionárias, na II Guerra.

Eu estive dois anos na Guiné.

Em conjunto quase dez anos ao serviço da Pátria.

Portugal não nos deve seja o que for. Entre nós e a Pátria não há negócios.

Aliás, pouco demos comparado com quem lá deixou amputados os corpos e as almas, ou, como o nosso Herói “Cenoura”, que lá deixou tudo o que tinha, dentro do seu avião/esquife, no norte da Guiné.        

A guerra é sempre condenável, sem remissão. Mas as dificuldades extremas moldam caracteres e originam sentimentos únicos. E a guerra, sendo o paradigma da dificuldade extrema, produz entre os combatentes um fenómeno de agregação único que só termina na morte. Como vão os políticos entender isto!? Como vão eles lidar com valores que lhes são estranhos? Como vão eles compreender que existe Gente que só quer que os deixem em Paz? Que é capaz de dar tudo sem nada esperar em troca?

Até sempre camaradas! Até sempre irmãos! São vocês a minha Gente, aquela a quem dou, de olhos fechados e alma tranquila, o meu voto! E não é um voto qualquer, é um voto para a Eternidade!

 

Em tempo:

 

 Diligências posteriores fazem supor, com grande probabilidade, que o meu Herói “Cenoura” foi o Furriel Piloto Aviador ANTÓNIO CARVALHO FERREIRA, natural da Paços de Ferreira. Foi abatido por um míssil Strella no norte da Guiné em 06.04.1973, a bordo da DO-27 que pilotava. O seu corpo terá sido resgatado por um grupo de combate de Pára-quedistas do BCP 12 (informações recolhidas em sítios de antigos combatentes e informações oficiais na internet).

 

Ainda em tempo:

 

A Justiça manda que se diga não ser invulgar as Autarquias fazerem levantar um símbolo de homenagem aos seus Filhos caídos na Guerra do Ultramar. Não temos que agradecer a mais que justificada atenção, mas é decente referi-la. Com gosto o fazemos.

                         António Zêzere, ex-alferes. Parede, Agosto de 2010. 

 

 

 

O Mundo pula e avança assim disse o poeta. Cufar faz parte do mundo, também pulou e para outra localização, provavelmente a mais adequada às actuais necessidades. Identificar o nosso "Cufar Antes" em algumas fotografias do "Cufar Depois", ainda é possível, basta correr a página e ver.             

É realmente simples graças a algumas fotografias gentilmente cedidas pelo camarada Adelino Ramos Sequeira. Aproveitamos este espaço para em nome da CCAÇ 4740, agradecer a sua amabilidade.                                                                                                                                        

Adelino Ramos Sequeira comandou o 2º Pelotão da C.CAÇ.2797, a companhia que nós fomos render em Cufar.

 

 

Afinal tem rodovias com sinalização

Zoom

 

Arvore do cruzamento de Camaiupa

 

 

 

A entrada de Cufar vista da pista de

 aviação

 

A torre da porta de Cufar, a passagem

fazia-se pelo lado esquerdo da torre

 

Rua que dá à porta de armas, a entrada principal de Cufar

 

 

 

A minha central eléctrica, hoje solitária

e quem sabe abrigo para animais

 

Minha porque a reconstruí na integra,

foi um trabalho que me deu muito

gozo executar.

 

Tabanca para dormitório dos militares

(quando souber quem lá

dormia legendarei

 

 

DO OUTRO LADO DO CUBIJà

As memórias das guerras de África constituem um espólio das gerações que as viveram e sofreram durante 13 anos.

Essas memórias sendo naturalmente individuais são, de igual modo, colectivas, património dessas gerações.

Apareceram, por oferta de uma Senhora Professora Universitária com actividades ligadas a África, algumas fotografias recentes do sul da Guiné que podem ser importantes para quem as conhece.

Assim a gestão do sitio da CCAÇ4740 entendeu publicar estas fotografias como homenagem aos camaradas do “outro lado” do Cubijã, alguns dos quais passaram por Cufar e outros que, não tendo passado, sofreram enormes dificuldades naqueles locais hoje calmos e belos.

A todos os Camaradas deste e do outro lado do Cubijã as nossas saudações

Por amabilidade da autora, incluímos aqui uma ligação ao seu blogue, onde o seu conteúdo é deveras interessante senão importante.

ÁFRICA DE TODOS OS SONHOS  

 

 

 

 

 

CEIA DE DIGESTÃO DIFÍCIL

 Ao cair da noite de 23 de Dezembro de 1972 o 2º Grupo de Combate, reforçado com o Pelotão da Caçadores Nativos 51 comandado pelo furriel Cunha, saiu do Quartel com a missão de ir montar uma emboscada no Porto de Impungueda procurando impedir a minagem do local através do qual éramos abastecidos pela Marinha.

Seriam sete horas da noite já cerrada quando a coluna tomou o lado esquerdo da pista e avançou ao longo do asfalto até encontrar um caminho que lhe permitiria atravessar uma bolanha encurtando a distância e, sobretudo, variando itinerários.

A ordem da coluna era a de sempre: na frente a 1ª secção sob comando do alferes com a bazuca 8.9 como arma colectiva; a 2ªsecção com a metralhadora HK 21, comandada pelo furriel Alexandre; a 3ª secção do morteiro 60 da responsabilidade do furriel Costa.

A primeira equipa da 1ª secção era a minha terminando na “sombra protectora”, o Freitas. Atrás dele o Pamplona com a bazuca, à frente da segunda equipa, do cabo Linhares.

Pouco depois do Grupo ter iniciado a marcha, já com as distâncias entre homens definidas, a cerca de 400 metros do quartel, ouvimos as sentinelas dispararem duas rajadas curtas e seguidas. Soubemos logo, era aquele o sinal convencionado, que tinham sido detectadas saídas de armas pesadas atacando Cufar. Mas não fazíamos ideia do que aí vinha…     

 Não foi preciso mandar deitar. Em segundos todo o Grupo estava colado ao chão naquele deserto inóspito e liso que era a borda da pista. O sulco mais fundo seria um carreiro de formigas ou a valeta por onde tinha escorrido a água na última chuvada há três meses atrás. Não existia um abrigo!

Ouvimos um silvo medonho, que não conhecíamos e logo a seguir um estrondo abalou tudo fazendo voar sobre a pista uma nuvem de pequenos estilhaços incandescentes.

O impacto tinha sido sobre o lado oposto da pista relativamente aquele onde estávamos.

Com a cara colada ao chão, a boca a saber a terra, foi possível espreitar pelo canto do olho e ver do lado da mata da Camaiupa um rasto de fogo no céu escuro. Depois deixou de se ver o rasto e começou a ouvir-se o silvo cada vez mais forte até acontecer segunda explosão tão brutal como a primeira, quase no mesmo local e nova chuva de estilhaços a varrer a pista.

Era o nosso baptismo dos mísseis 122. Daí o rasto de fogo quando o víamos a ganhar altura depois do disparo. Depois o silvo quando o míssil escondia o rasto com a descida para os alvos.

Foram mais quatro, cinco, seis…sabemos lá! No dia seguinte detectamos nove impactos no lado direito da pista. Nós estávamos no lado esquerdo, separados pelo asfalto. Há quem diga que foi sorte, outros Nossa Senhora.

Quando o fogo terminou e começaram a ser sussurradas as primeiras palavras o Freitas perguntou-me: o meu alferes tá bem? Tou , e você? Veja para trás que eu vejo para a frente.

Ainda não tinha contactado o Simas, o Cordeiro ou o Aguiar quando o Freitas gritou: Meu alferes o Pamplona está morto!

Absolutamente petrificado morri naquele instante um bocadinho. O Pamplona morto? O Pamplona de cara redonda e graça fácil a engrossar a voz para parecer mais velho, morto?

Quando voei para trás juntamo-nos em redor do Pamplona inanimado, três ou quatro metros para a esquerda da bazuca posta no chão no alinhamento da marcha do Grupo.

-Ele não tem sangue meu alferes, dizia o Freitas, angustiado.

Berrei pelo nosso enfermeiro Maurício e desferi na face esquerda do Pamplona a mais monumental estalada que alguma vez dei. Não vi sangue, não vi pulso, não vi respiração, não vi coisa nenhuma! Só o grito pelo enfermeiro que deve ter sido escutado no quartel e um chapadão com toda alma para devolver a vida ao meu Pamplona.

O Maurício demorou segundos e pôs o Pamplona de lado. O Pamplona gemeu, momentos depois um Unimog chegava e o Pamplona era levado para a enfermaria onde aportamos todos ao mesmo tempo para que a confusão fosse completa. Tudo posto na rua e feito silêncio foi possível o atendimento do Pamplona. 

Alguns minutos depois sai o pessoal médico, o Maurício e o Pamplona pelo seu pé.

E veio a explicação, afinal, simples.

O Pamplona, como sempre no mato, levava a bazuca armada. Quando se deitou para o chão procurou arrumar a arma não fosse disparar-se ao ser lançada com violência. Entretanto o primeiro míssil explodiu a cerca de 40/50 metros e o sopro atira com o Pamplona de pantanas por quase quatro metros, fazendo-o desmaiar.

Á frente do Pamplona na coluna ia o Freitas, à frente do Freitas ia eu. Oh Pamplona ainda bem que a bazuca não disparou ao cair no chão…

Foi preciso reorganizar a acção e avançar para Impungueda. Quase na porta d’armas olho para trás e vejo no seu lugar o Pamplona com a bazuca. Mandei o municiador tomar conta da arma e mandei o Pamplona para a cama. Pela primeira vez não disse nada, nem sequer esboçou protesto. É que elas também doem aos valentes…

Na manhã seguinte, bem cedo, antes de ir ver as crateras dos mísseis fui ver o Pamplona.

- Então como está camarada?

- Bem meu alferes mas veja lá que tenho o lado direito do corpo como uma nódoa negra pegada desde o pé até à cabeça. Mas o que me dói mesmo é a cara do lado esquerdo, dizia flexionando o maxilar, sem entender os mistérios ocultos do corpo humano.

As testemunhas presenciais, o Maurício, o Freitas, o Aguiar, o Simas, o Cordeiro   e mais um ou outro nunca falaram ou, com a angústia, nem viram. Naturalmente o autor não confessou.

Trinta e quatro anos passados com o Pamplona reformado da PSP, cuidando de galinhas na Praia da Vitória e o alferes reformado dos Serviços Prisionais cheio de pena por não ter galinhas é que a história foi esclarecida.

- Oh Pamplona lembra-se da noite dos mísseis e da dor na cara no dia seguinte? Olhe fui eu quem lhe enfiou um tabefe para você não morrer…

- Veja lá se quer que eu, agora, lhe agradeça ter-me salvo dum desmaio daquela maneira bonita…

- Não precisa de agradecer. Eu só retribui você não ter atirado a bazuca ao chão e, provavelmente, ter-me salvo mesmo a vida..         

Esta odisseia está descrita em verso pelo soldado Simas que encontrou na métrica a forma de expressar o que sentiu e pode ser lida no nosso sítio da internet.

                                                                        Parede, Outubro de 2008.

 

Nota: Para avaliar a “qualidade” da refeição refira-se que o míssil 122 dispunha de 6.5 Kg de explosivos, produzia 15.000 estilhaços e provocava uma zona de morte de 160 m2.

 

 

AQUELES PARA QUEM A GUERRA NUNCA ACABAVA.

Quando a fotografia do Alfa Nan Cabo gritou a sua presença no reagrupar da Companhia de Caçadores 4740, carinhosamente enviada pelo Alferes Nascimento do Pelotão de Canhões 5.7, tomaram o seu legítimo lugar nesta memória, aqueles para quem a guerra nunca acabava. Aqueles que de 1963 a 1974, naturais da Guiné, viveram ao nosso lado e muitas vezes combateram connosco sem licenças, sem fins de comissão e, muitas vezes, sem a consideração que a sua missão impunha. Sujeitos aos mesmos ou a maiores perigos que todos nós, multiplicados por vários anos, devem merecer a nossa estima, o nosso respeito, o nosso agradecimento e as nossas desculpas. A estima, o respeito e o agradecimento têm razões óbvias na consciência de cada um. As desculpas são devidas pelo pouco cuidado que houve para assegurar a sua presença no seu chão depois da independência. Hoje dir-se-á que se tratou dos famosos e inevitáveis danos colaterais. Maneira eufemística de mascarar comportamentos pouco desejáveis para não dizer pouco dignos. O Alfa é um bom exemplo. Ia em todas as operações, com todos os grupos, de todas as Companhias que passaram por Cufar. Ninguém dispensava o Alfa apesar dos anos de desgaste e sofrimento. Ninguém avaliava o que lhe ia na alma. Ninguém se preocupava com o queria ou não queria. Ninguém percebia que o Alfa estava a ficar velho e muito cansado. Não sei, se calhar ninguém sabe, o que sucedeu ao Alfa depois de 1974. Mas sei que lhe devo esta palavra de respeito profundo e de desculpas sentidas. Não faço ideia de como se chamava o senhor comandante do nosso Batalhão. Mas tenho a memória do Alfa Nan Cabo gravada na alma e honra-me reconhece-lo como camarada.

António Zêzere, Maio de 2008.

 

O MEU 25 DE ABRIL DE 1974

UM DIA ATRIBULADO PARA IR DE FERIAS NO CONTINENTE

 

Preparar tudo para que não houvesse percalços foi fundamental, assegurara a viagem para Bissau, passaporte militar assinado e pronto a levantar no Quartel General, passagem de avião na TAP, marcada e bilhetes emitidos, toda a logística foi confirmada, vir de férias era então uma realidade.

Deu-se início ao processo físico, estávamos no dia 25 de Abril de 1974, a azáfama do dia começou bem cedo, mesmo assim, o sol já ia alto. A primeira parte da viagem foi de Cufar para Bissau, só foi possível numa LDG que iria passar ao largo no rio Combija, e esta impunha uma condição, não atracar no porto de Impungueda porém iria de motores parados ou seja, em marcha lenta. Foi então necessário, activar a equipa de barqueiros para nos transportar até à LDG. Esta equipa, era constituída por dois Açorianos que devido à sua fisionomia, faziam, lembrar-me uma dupla cinematográfica Italiana o Franco Franchi e Ciccio Ingrassia, um alto o Peixoto, o outro  baixo o Couto mas ambos magros, só que estes, manejavam de uma forma perfeita

como só um pescador sabe, a geringonça do barco de fibra a que chamávamos de sintexe e que servia para transporte de pessoas e mercadorias.

Após uma longa espera no porto de Impungueda no rio Cumbija, onde se fazia sentir a presença de um navio patrulha, apareceram finalmente ao longe os zebros com os fuzileiros que faziam a escolta ao navio e por fim, a tão esperada LDG.

Era hora de entrarmos a bordo da LDG que para reduzir velocidade, tinha desligado os

motores, lá fomos no "sintex", após embarcarmos, foi tempo de um agradecimento aos barqueiros, e de um olhar mais, ao porto de Impungueda, onde mais tarde voltei.

A viagem teve o seu início, sair dali era preciso e bem depressa pois o calor da guerra e a maré que estava na vazante, não eram propícios a passeios de barco no rio, mesmo assim, pude desfrutar de uma vista única rio abaixo, e em direcção ao mar lá fomos.

A dado momento e já em pleno mar, mas próximo de uma ilha o navio fundeou, fiquei

preocupado, precisava de ir ao QG antes das 17:00 horas levantar o passaporte e os bilhetes de avião, a viagem estava marcada para o dia seguinte no aeroporto de Bissalanca. Vi que uns marinheiros saíram em fato de banho e outros, em traje militar, tinham estes últimos a missão de fazer a segurança aos quem ia tomar o belo do banho, sem conseguir esconder a minha aflição,

apressei-me a saber o porquê, se íamos embora e quando, tive uma resposta muito clara de um oficial do navio, tem muita calma amigo, houve um movimento militar em Lisboa e o comandante do navio já aderiu, agora vamos aguardar pela posição de Bissau, se aderir navegamos para Bissau caso contrario, navegaremos para Lisboa.

Escusado será dizer que quase entrei em pânico, imaginava como podia ser desagradável viajar naquele navio lotado de estivadores, eu não tinha qualquer reserva de alimentos ou água, enfim, o cenário era muito pouco propicio à retenção de adrenalina mas nada podia fazer, as horas passaram-se e bem devagar, sei que era noite quando zarpamos rumo a Bissau onde chegamos tardíssimo, a maré vazia obrigou-nos à utilização de uma escada de corda e que chamaram de portaló, de mala às costas lá fui escada acima, oh quanto e difícil equilíbrio foi preciso fazer, só eu e os outros que estavam na mesma situação sabemos.

Chegados a Bissau fiquei no clube de sargentos, ao nível da restauração até que se podia dizer de qualidade bem razoável, agora os dormitórios, para os passantes que até estavam folgados da vida do mato, eram execráveis, penso que assim ficam bem qualificados.

Depois de ter levantado os documentos necessários no QG, foi um corre-corre para o aeroporto, quando vai haver o avião? Não sabemos, não há previsão, bom, se bem me

lembro, depois das diversas esperas no aeroporto e se a memória não me atraiçoa, a 29 de Abril lá apareceu um avião e voámos rumo a Lisboa.

Depois de chegar ao aeroporto da Portela só sei que apanhei um táxi, destino casa para ver a família que no meu caso, se resumia aos meus pais namorada e seus familiares. Confesso que não estava preparado para estes movimentos militares e políticos, tudo foi uma novidade ao ponto de se passarem os dias de licença que restavam, sem eu dar por isso. Agora que as coisas tinham mudado de rumo, estava a chegar a hora de voltar, faltavam 4 meses para o fim da comissão mas já era maior a tranquilidade, é que quando saí de Cufar, as coisas estavam bem quentes provavelmente ao rubro.

Meus bons amigos, depois de voltar a Bissau, de novo no Clube de Sargentos a aguardar transporte para Cufar, entretanto deu para dar um passeio por Bissau e encontrar-me com o nosso companheiro Marques, furriel de transmissões. Uma ida ao Pelicano, passagem obrigatória para quem deambulava por Bissau, o Pelicano era um café que se situava junto ao porto de Bissau. Por fim o regresso a Cufar para o rescaldo da comissão.

Mário Oliveira – ex-furriel mecânico auto

Camarate, Abril de 2008

 

ASSIM FUI TENDO FÉ, PEDINDO A DEUS QUE ME AJUDE

É escrito com sangue e dor
Aquilo que vou falar
E com o maior fervor
Agora vou começar.

Com licença, meus senhores
Minha história eu vou contar,
Quando eu saí dos Açores
Para ir p’ró Ultramar.

Quando à Terceira cheguei
E segui para o quartel
Logo em mim recordei
A ilha de São Miguel.

Sentia uma coisa estranha
Sem saber compreender,
Coisa esquisita e tamanha
Difícil de entender.
-
O tempo se foi passando
Dias bem, dias mal,
E fomos continuando
Soldados de Portugal.

Passados dois meses
Lá fomos jurar bandeira.
Sofremos, mas às vezes
Parecia uma brincadeira.

Quando um dia na Parada,
À noite, o silêncio tocou,
Veio a notícia desamparada
Que o comandante contou.

Com umas folhas na mão
Más notícias veio dar
O nosso capitão
“Vão para o Ultramar”.

Dez dias mais
E fui a São Miguel,
Despedir-me de meus pais,
Eu, Eduardo Manuel.

Ó meu Deus, eu vou partir
Sem saber se isto é justo,
Qual o dia em que hei-de vir
Vou viver com tanto custo.

Quanto à nossa viagem
Melhor não podia ser,
Com espanto e coragem
Vendo o que tinha que ver.

Corrido cerca de um mês
Partimos para o mato,
Lá fomos para o Cantanhêz
Onde não parava um rato.

Na LDG embarquei
E beleza eu não vi,
Aquilo em que eu pensei
Foi na terra onde nasci.

Os dias se vão passando
Dão vontade de chorar,
As horas vou recordando
Passo a vida a disfarçar.

Na primeira operação
Que nós fomos fazer,
Deu-me um baque no coração,
O que veio a acontecer.

Quando os homens voltaram,
Três grupos da operação,
Logo as minas rebentaram,
Meu Deus, grande traição.

Passou palavra o primeiro,
Diz-me lá o que é que queres,
Vai chamar o enfermeiro
P’ra vir tratar do alferes.

Ó meu Deus, o que seria,
Quem serão os desgraçados?
Foram para a enfermaria
Três alferes estilhaçados.

Lá ficaram mutilados
Os infelizes sem sorte,
“Turras” serão apanhados
E todos irão à morte.

Que tristeza e amargura
Tanta vez aconteceu,
Morrer uma criatura
P’las mãos de um seu irmão.

Meus versos não levam cunho
Do que eu amo ou adoro,
Eles são o testemunho
Do que canto, do que choro.

Assim se passa esta vida,
Horas tristes a chorar,
Se a dor fosse esquecida
Eu poderia cantar.

Sofrer vinte e quatro meses,
Um soldado nada tem,
Agonias, tantas vezes,
Só Deus sabe, mais ninguém.

Eu sei que estes versos são
Uma coisa escrita ao leve,
São pobres, sem perfeição
Como a pena que os escreve.

Estive quase a dar um tiro,
Primeiro dia de Agosto,
Ó que noite de martírio,
Passei a noite no posto.

Meus olhos no firmamento
Horas e horas, ou mais,
Vieram-me ao pensamento
Os meus queridos pais.

No dia 9 de Agosto
Fomos p’ro mato arreados,
Vamos voltar com o gosto
De não sermos apanhados.

À saída do quartel
Eu pensei na minha cama
E pensando em São Miguel
Caí enterrado em lama.

Que será preciso mais
Estamos aqui como uns parvos,
Tiram-se os filhos aos pais
E fazem deles escravos.

Quando a manhã nasceu
Cercámos o inimigo,
Foi a Fé que me valeu
Porque Deus vinha comigo.

Lá por fora o dia inteiro
Sem qualquer resultado,
Perdidos num cativeiro
Entre capim alteado.

Ao quartel quando chegámos
Sem forças e cheios de fome,
Quase não falámos
Fogo dentro nos consome.
Querem homens para a guerra
A padecer fel e dores,
Queremos sair desta terra,
Queremos ir para os Açores.

Dia 7 de Setembro
Saímos ao anoitecer,
Eu não quero que me lembre
Tantos homens a sofrer.

Era tanta a nossa mágoa
E com tantos embaraços
Apanhámos forte água
Que pareciam estilhaços.

A 23 de Dezembro,
Ó mãezinha muito querida,
Eu nem quero que me lembre
Parecia o fim da vida.

À noite dois pelotões
Saíram todos armados
E com nove foguetões
Lá fomos nós atacados.

O fogo acabou
Sem nos causar mal,
Nossa Senhora salvou
Os soldados de Portugal.

Isto foi acontecido,
Queiram todos acreditar,
Quanto se tem sofrido
Nesta vida militar.

Que vida tão rigorosa
Que até nos faz pasmar,
Que vida tão perigosa
Soldados do ultramar.

Assim fui tendo Fé,
Pedindo a Deus que me ajude
P’ra que ao sair de Guiné
Leve a vida e a saúde.
 de, Eduardo Manuel Simas
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