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SE BEM ME LEMBRO


Esta página, destina-se à publicação das nossas Recordações.

Para publicarmos os textos e as fotos que nos enviarem, usem um qualquer e-mail existente nos  contactos.

Queremos fazer um site que possa ser visto por qualquer criança, e que esta não seja violentada com imagens menos próprias, essas, tomaremos a liberdade de não publicar e informar o autor do artigo.

 

 

Aqueles para quem a Guerra Nunca Acaba de António Zêzere

Assim Fui Tendo Fé de Eduardo Simas

Cenoura estranho nome.... de António Zêzere

Cufar Antes e Depois de Adelino Serqueira

Do Outro lado do Cubijã de António Zêzere

 

O Meu 25 De Abril de Mário Oliveira

Palavras em Fátima de António Zêzere

Quatro Experiências Gastronomicas na Guiné de Luís Oliveira

Reencontros, Encontros e  Desencontros de Armando Faria

 

A gastronomia da região onde nascemos e crescemos por mais simples e “pobre” que seja tem uma identidade de paladares e rituais que nunca abandonarão a nossa vida e a ausência dos aromas e sabores da nossa infância é sempre motivo de nostalgia e até de saudade, por isso considero que a gastronomia constitui um pilar identitário e cultural a que às vezes é dada pouca importância. Quando por razões imperiosas como a guerra ou a emigração nos afastamos do nosso Chão é que valorizamos, como quase tudo, as comidinhas que deixámos para trás e que o local onde passámos a viver não nos oferece.

Na Guiné devido a todas as dificuldades de logística, de conservação dos alimentos e até de aquisição de alguns bens que os naturais se recusavam a comercializar, a base da alimentação era o arroz, o feijão e conservas, que sendo excelentes alimentos, a sua presença sistemática nos refeitórios e messes, acabava por saturar e fazer crescer a água na boca só com a lembrança de batata frita ou cozida, de uma boa sardinha assada ou de um simples bife com ovo a cavalo. Sempre que através de uma encomenda enviada pela família ou qualquer outro acontecimento invulgar nos permitia inventar um “petisco” era uma festa e esse acontecimento passava a fotografia que ainda hoje figura no nosso precioso e muito intimo álbum que é a memória.

Para além de algumas outras recordações, seleccionei quatro estórias de comida que partilho com os amigos e camaradas do Blog, para que as conheçam e recordem as vossas próprias aventuras gastronómicas na Guiné.

 

Menu das experiências

I - Uma oferta dos camaradas de Cacine permitiu mayonnaisse em Cufar.

Uma das ausências nos nossos pratos na Guiné, era o peixe fresco. Sobretudo quem vivia no litoral de Portugal tinha o pescado sempre presente na sua dieta e embora muitos preferissem a carne que era cara e por isso de uso menos frequente, a falta do “peixinho” era notada.

Na companhia que estava estacionada em Cacine esta falta não se sentia porque abundava peixe com qualidade no rio Cacine e um belo dia foi-nos enviado um de dimensões generosas pelos camaradas daquela unidade que certamente sabiam das nossas faltas. Se o projecto de almoço era uma delícia só para a vista, a imaginação foi ainda mais rápida e pensei imediatamente em mayonnaise, um prato frequente em minha casa, sobretudo no verão, e de que tinha imensas saudades. Propus-me imediatamente para como auxiliar de cozinha produzir a desejada iguaria e não se perdeu tempo, não faltavam ovos, azeite, sal e vinagre pelo que o principal estava garantido e portanto mãos à obra!

Como tinha em miúdo auxiliado a minha mãe a confeccionar a mayonnaise (segurava a tigela) segui os passos de que me lembrava e o molho foi aparecendo na enorme malga de aço com aspecto e gosto de que me lembrava e a grande quantidade produzida permitia além de um bom exercício de musculação para antebraço e pulso temperar o peixe já cozido e reservado para a degustação.

O problema foi a ausência de ervilhas, feijão-verde, alface, pikles, beterraba, cenoura, azeitonas, enfim, faltava quase tudo o que normalmente acompanhava aquela refeição fresca e saborosa de que me lembrava mas felizmente não faltava o apetite, o peixe e as batatas o que já era quase literalmente uma lança em África. O peixe e as batatas foram servidos e temperados com aquela deliciosa mayonnaise de que ainda hoje me lembro e que talvez tivesse sido a primeira mayonnaise servida na Guiné. 

 

II – Açorda de bacalhau com coentros e tudo.

Na região Oeste onde tenho as minhas origens os coentros eram pouco utilizados, das poucas aromáticas que tenho memória figuram a salsa, a erva azeitoneira, o louro, a segurelha, a hortelã e a cidreira. A minha primeira experiência gustativa com os coentros surgiu por acaso em Cufar na Guiné.

Um sargento do quadro permanente que creio prestava serviço no COP4 ou no Pelotão de Intendência, alentejano de gema não dispensava os coentros para recordar os sabores natais e convidou-me para uma açorda alentejana, prato que eu desconhecia, na minha região apenas tinha comido a dita de alho que acompanhava habitualmente peixe frito embora muitas vezes constituía acompanhamento e conduto. Claro que estas ofertas nunca se desperdiçavam e aderi de imediato ao petisco que foi confeccionado na minha presença pelo sargento que dispunha de uma pequena plantação da dita erva aromática.

Pisou os alhos com os coentros e o sal, juntou o azeite e água quente de cozer o bacalhau e regou com esta extraordinária mistura uma malga onde aguardava o bacalhau já desfiado e o pão que não sendo alentejano cumpriu de forma admirável a sua função.

Foi um petisco maravilhoso do qual guardo boa memória, neste caso trazida da Guiné, apesar de não ser um prato da região. Uma prova que a convivência dos militares num cenário de guerra também fomentava a troca de experiências e informações sobre costumes e tradições das diversas regiões do país o que também contribuiu para o nosso enriquecimento como pessoas e como Portugueses.   

III – O Padeiro de Mato de Cão.

O pão é um alimento extraordinário que caso não tivesse sido criado há mais de 6.000 anos na Mesoptâmia, provavelmente a existência humana tivesse sido comprometida. Não conheço ninguém que não goste de pão nas suas múltiplas formas de fabrico e em particular, nós portugueses não o dispensamos para acompanhamento ou mesmo como elemento principal de uma refeição.

Em Mato-de-Cão embora o efectivo dos europeus se limitasse a dez elementos, um deles tinha a “especialidade” de cozinheiro que também abrangia a de “padeiro”. Infelizmente tratava-se de uma pessoa com enormes limitações cognitivas, recordo-me que entre outras confusões achava que “valor declarado” e “louvor declarado” eram a mesma coisa e não fora as grandes dificuldades de recrutamento da época o nosso jovem “cozinheiro” seria certamente adstrito ao contingente de básicos.

Na cozinha dada a simplicidade e a repetição dos menus as coisas iam correndo, mas no que dizia respeito ao pão, o homem não se safava e a nossa dentição só resistia devido aos vinte e poucos anos de uso que tinha na altura e o produto do nosso padeiro só era tragável numas sopas de café.

Propus-me a alterar esta situação para mim desastrosa e com calma e paciência arranjei umas medidas para que ele respeitasse as quantidades de farinha e fermento, indiquei-lhe o tempo da levedar da massa, mas continuavam a sair pedras ao invés de pães do nosso forno. A paciência perdida e um exemplar da padaria na cabeça do “cozinheiro/padeiro” que ia originando um traumatismo craniano no funcionário levou-me a desistir de o transformar num padeiro capaz.

Mas como o homem é criativo e sabe aproveitar as oportunidades, um soldado do pelotão 52, o Jobo Baldé, abordou-me com oportunidade e a sua habitual irreverência – Alfero, Jobo passa a fazer o pão para o pessoal! – Não sabes fazer pão, Jobo, não te metas nisto que arranjas problemas. - Jobo sabe fazer pão, alfero, deixa experimentar e vais ver.

Perante sua insistência e convicção e no desespero de não haver outra alternativa resolvi experimentar as aptidões do Jobo para novo responsável da padaria. Expliquei-lhe as medidas para a farinha e para o fermento, o tempo para levedar e ele atacou de imediato a nova função. Não sei se por milagre ou se pelas aptidões inatas do Jobo, no dia seguinte quando este me chamou para ver o pão acabado de cozer tive das grandes alegrias gastronómicas da minha vida. O pão estava quente, tinha crescido por obra do fermento e da forma carinhosa com a massa tinha sido tratada, o som da batida no “lar” parecia um tambor a acusar uma boa cozedura e o abrir a crosta estaladiça evidenciava um miolo macio, fumegante e com um cheiro delicioso. Regalámo-nos de imediato com pão quente e manteiga e o Jobo ganhou o lugar!

O jobo estava feliz com a nova função e cumpria-a com pontualidade, brio e grande competência. Posteriormente ensinei-o a fazer merendeiras com chouriço e ele começou a produzi-las sem grande esforço de explicação. Quando as tinha cozido trazia-me de imediato uma e eu recordava as que a minha avó fazia na Marteleira quando era dia de cozedura. No que dizia respeito ao pão, tínhamos atingido, graças ao Jobo Baldé, a felicidade. O Jobo também estava feliz, era casado com uma mulher bem mais velha que ele herdara do irmão entretanto falecido. Embora esta mulher fosse divertida e senhora de um grande sentido de humor já tinha perdido o fulgor e a beleza da juventude e o nosso amigo e saudoso Jobo Baldé, quando acabava de fazer o pão, tinha sempre visitas de exuberantes bajudas a quem ofertava uns pães a troco de inconfessáveis favores. A felicidade conquista-se com pequenos acordos e cedências. Estávamos todos satisfeitos…até as bajudas.    

IV – Macaco em Mato de Cão.

Sempre na pesquisa de petiscos e novos sabores para variar a nossa rotineira cozinha, um dia o soldado Tomango Balbé, o maior “pintoso” do pelotão, depois de alguns convites para comer o fígado de “bandido” quando apanhássemos um, veio sugerir que petiscássemos macaco cão.

A primeira ideia foi imediatamente recusada, embora ele defendesse que iriamos reforçar a nossa força com a do inimigo abatido e cozinhado, este prato estava longe de poder ser bem acolhido por nós, a não ser que o “bandido” fosse uma gazela tenrinha ou um javali bem gordinho, contudo a ideia do macaco cão não era totalmente de deitar fora. Os guineenses comiam macaco cão com regularidade, esta iguaria era até muito apreciada e havia quem achasse a carne do macaco semelhante à do cabrito, por isso aceitámos comer um quando a caça o permitisse.

 Um dia o Tomango apareceu com um macaco cão acabadinho de ser caçado e como não podíamos voltar com a palavra atrás, o animal foi para a cozinha para ser preparado. O aspecto do bicho era devastador depois de esfolado pois tinha mais semelhanças com um humano recém-nascido do que com um cabrito, foi colocado a marinar em vinha de alhos e depois para o forno para aquecer os nossos estômagos no jantar do dia.

Havia poucos candidatos para a degustação, mas depois de cortado e arranjado no forno com as batatinhas assadas apresentava um aspecto comestível, até atractivo e a abrir o apetite. Os menos receptivos ao manjar foram alterando as suas posições, alguns após provar até repetiram e o tabuleiro ia ficando vazio. O grande companheiro e amigo Santos, o furriel mais antigo do 52, era dos menos entusiasmados com o manjar, mas perante o exemplo dos outros camaradas que já tinham esquecido o que estávamos a comer, lá pegou num bracinho do bicho que parecia estar bem passado, atirou-se a ele e ainda deu umas dentadas, de repente e quando já ninguém esperava, desata a correr para a parada e pelos sons que chegavam à cobertura de chapa ondulada a que chamávamos refeitório, estaria a libertar o seu estomago sofredor não só do petisco acabado de deglutir, mas também de todas as refeições ingeridas nos últimos dias.

Passado algum tempo, já recuperado do esforço libertador daquela comida que o estomago se recusou a receber, perguntei-lhe – Então Santos, não gostaste do cozinhado? Ele ainda amarelo e enjoado respondeu que não foi pelo paladar que nem estava mau, o que o enjoou foi a pilosidade do sovaco do bichinho que não tinha sido convenientemente depilado.    

   

 


Reencontros, encontros e desencontros!

Visita aos Açores 2011

 
 

Depois de um sobressalto com a minha máquina “coração”, após o nosso encontro em Fátima, que se dispunha a querer abrandar o ritmo ou, quiçá, faze-lo mesmo parar, reparada que foi em tempo oportuno a 13-07-11, cá me deixei convencer pelos filhos e aceitar a sua oferta, revisitar a nossa Terra, os Açores de minha alma.

O local escolhido tinha que ser para descanso, essa era á partida a condição imposta e nesse contexto nada melhor que o Faial, para cumprir a tradição Açoriana que reza assim, “S. Miguel para trabalhar, a Terceira para bailar e o Faial para descansar”, foi fazer a mala e meter pés ao caminho que o HOMEM da Terra já lá estava com a família á nossa espera.

Reencontrado o HOMEM da Terra, o José Adelino Goulart da Rosa e da sua (nossa) família, aqueles que foram dotados de um enorme coração e grandeza de alma, foi instalarmo-nos no repouso que nos havia reservado e esperar que o tempo decorresse pachorrentamente para que o objectivo fosse alcançado, esperar que o José Maria regressa-se das suas vindimas no Pico e fechar o ciclo dos reencontros no Faial, pois, o José da Silva tinha vindo de véspera para Lisboa.

Encontro casual com a sempre e pronta colaboração do nosso amigo Salvador, que da Holanda me informou da presença do nosso companheiro Leonel Rodrigues, estava na Horta, não onde se cultivam os tomates e as alfaces, mas a Horta, Faial para onde viajou das Flores a uma consulta médica no Hospital e aconteceu uma história digna de menção; o nosso amigo Leonel sem nos apercebermos jantou junto a mim, estava eu com minha mulher a jantar e já perto do fim entrou ele no restaurante para tratar do mesmo, não sei como mas pressenti que algo me dizia aquela cara não ser de todo estranha, mas ele sentou-se na mesa atrás da nossa e ficou de costas, não dei mais atenção, não era possível e continuei a conversa, demos o nosso jantar por terminado e saímos, quando estávamos na esplanada junto da marina a tomar o nosso café liga o Salvador da Holanda a informar a presença do Leonel, liguei-lhe a saber onde estava, resposta pronta, estou nas Angustias, também eu respondi, afinal estávamos a escassos 500 metros, fui de imediato ao seu encontro e qual o nosso espanto, já nos havíamos encontrado, seguiu-se novo encontro no dia seguinte já com o Goulart da Rosa conforme se pode ver pela foto e um jantar a três para despedida, escolhido que foi o mesmo restaurante, ele regressou ás Flores na manha seguinte.

Desencontro, foi o que aconteceu com o José da Silva, mas esse por uma boa causa, tinha vindo a Lisboa afim de ser operado e como sabem tudo correu bem e neste momento em que escrevo estas linhas, 23h30 de Domingo 09-10-11, já falei com ele na sua casa nos Cedros, Faial onde se encontra junto dos seus mais próximos, ficou a saudade de um abraço por dar, não de uma visita por fazer, essa a outros coube tal função na sua permanência na Capital, mas não deixei de ir á sua Terra em dia de festa rezar ao “seu” Santo António pela sua recuperação que com a Graça de Deus e a ajuda da sua enfermeira Amélia se fará pelo melhor, tenho fé.

No período da sua estada no hospital foi mantido o contacto diário a partir da Horta pelo José Adelino Goulart da Rosa e pelos restantes que por lá permaneciam.

Novos reencontros em S. Miguel, como tinha escala de ligação ao Porto em Ponta Delgada com tempo bastante para uma breve visita, deleguei no Pedro Jorge Sousa Rego (batatinha) que viesse ao meu encontro, me conduzisse aos Arrifes ver o Abel Raposo, o João Luís Pereira Soares ao saber da minha presença, juntou-se a nós e foi carregada de muita emoção esta visita surpresa para o Abel, mas ao mesmo tempo de muita alegria, encontrei um Abel rodeado do maior carinho e abnegação por parte da esposa, filhas, família e vizinhos; e repito aqui o que lhe disse, tenho fé e esperança de um dia o poder visitar noutras circunstâncias, Deus tem muito para fazer e não se esquecerá de um homem bom como aquele Abel que todos conhecemos, afinal ele tem a seu lado um dos sorrisos mais bonitos que eu conheci em toda a minha vida, a sua menina Carolina.

As poucas fotos anexas dizem o resto do que foi esta visita pela nossa Terra e a nossa gente, deixarei para outra oportunidade descrição mais ao pormenor caso assim o entendam, ou então é só darem um toque para o meu telemóvel e eu, como sempre, estabeleço a ligação e aí falaremos o tempo que cada um quiser ou esteja disposto a escutar as historias do Faria e da sua viagem, até lá vai daqui um grande abraço para todos e um grande obrigado aqueles que nos receberam, nunca encontrarei palavras bastantes para o fazer, espero-vos a todos a qualquer momento no Norte ou em Fátima a 16 Junho 2012.

 

Pedroso, 09 Outubro 2011 – Armando Faria

 

 


“CENOURA”

 
 

Estranho nome para herói

  Nunca imaginei que uma memória com quase quarenta anos, a memória dum Amigo de quem nem o nome sabia e que vivia no meu íntimo e nos meus afectos sob o pseudónimo de “Cenoura” por virtude do seu cabelo quase vermelho, havia de provocar a confusão que gerou.
  No almoço da Companhia 4740, em 19 de Junho do ano em curso entendi, em nome pessoal, “louvar” dois antigos camaradas: Marcelino da Mata, Alferes graduado e o “Cenoura” de quem desconhecia o nome. Sabia ser Furriel Piloto da Força Aérea, ter estado em Cufar muitas vezes durante o dia, fazendo segurança com os aviões, ter uma forma de estar cativante e um ar de menino porventura aumentado pela invulgar cor do cabelo. Também sabia que havia sido abatido por um míssil Strella em Abril de 1973. No início da vida ela, essa vida, tinha sido, como tantas outras, barbaramente ceifada.
  A confusão começou com a sempre presente boa vontade e diligência do Furriel Faria aliada a um coração tamanho do mundo, também ele amigo do “Cenoura”:
- Já sei quem é o “Cenoura”! É o Furriel Piloto António Carvalho Ferreira, natural de Paços de Ferreira e abatido na Guiné a bordo de uma DO-27 no dia 6 de Abril de 1973.
Em vários sítios da internet foi possível recortar boa parte desta informação. Mas a verdade é que os serviços do Registo Civil de Paços de Ferreira não conseguiam encontrar, num período de busca alargado e com uma boa vontade sem limites, nem o nascimento nem o óbito do Ferreira.
Os arquivos dos serviços militares consultados também não puderam dar, na oportunidade, resposta às dúvidas.
  Factos incontroversos não havia um que fosse. Apenas indícios, probabilidades, aproximações.
E, sob dúvidas, foi acrescentado um apêndice ao texto lido em Fátima admitindo a possibilidade do “Cenoura” poder ser o Fur.Pilav António Carvalho Ferreira.
  De repente surge outro nome, vindo das buscas do Fur. Oliveira: Baltazar da Silva. Era Furriel Piloto, tinha sido abatido na Guiné, no mesmo fatídico dia 6 de Abril de 1973, também pilotava uma DO-27 e, em escrito inserto na internet sob responsabilidade do ex-alferes Abreu, aparece descrito como um rapaz alto, de cabelo encaracolado e muito ruivo.
Perante esta última circunstância só a improvável existência de dois ruivos, ambos Furriéis, ao mesmo tempo Pilotos na BA 12, abatidos no mesmo dia podia levar a supor que o “Cenoura” não fosse o JOÃO MANUEL BALTAZAR DA SILVA.
  O avião do malogrado Baltazar da Silva foi localizado e os corpos recuperados. O camarada que transportou os corpos para Bissau, Victor Barata, refere esse facto com chocante emoção num escrito dum conhecido e reputado blogue - Luís Graça.
  Entretanto o Arquivo Central da Força Aérea deslinda com perícia a questão do Furriel Ferreira. O seu nome completo é Fernando António Carvalho Ferreira, havia sido dado como desaparecido em combate e, por decisão de 5 de Novembro de 1984, foi declarado o óbito e o correspondente registo lançado na Conservatória dos Registos Centrais.
  De todo o modo apenas parece existir uma forma equilibrada e, sobretudo, justa de encerrar este assunto: Os Heróis passam a ser dois, Carvalho Ferreira e Baltazar Silva. Dois quase-meninos, ao serviço de Portugal, deixaram no inicio de Abril de 1973 as suas vidas na Guiné, tripulando as suas DO-27. Os que com eles lidaram, agora no limiar da velhice, podem deixar rolar a lágrima guardada por quase quarenta anos e, se tiverem fé, pedir a Deus que tenha a Mão sobre aqueles camaradas . Os nossos Heróis merecem tudo, sobretudo o nosso eterno respeito! Por eles e pelas Famílias que os perderam. E, afinal, por todos nós…

                      António Zêzere, Parede, Agosto 2010.

 

 


PALAVRAS EM FÁTIMA NA REUNIÃO DE 19.06.2010

 
 

 Extracto de um escrito “Camaradas & Irmãos de Cufar”

……. O pouco que havia era partilhado. E havia realmente muito pouco. Nos primeiros meses os oficiais e sargentos não podiam tomar as refeições todos ao mesmo tempo. Pela prosaica razão de que não havia pratos e talheres para todos. Passavam-se semanas sem um fresco na alimentação. E chegamos a ter para comer arroz e marmelada. Foi ocasional mas sucedeu.

Terão existido momentos moral e eticamente reprováveis nas relações entre pessoas diferentes. Chegou-se mesmo a extremos de agressividade. Afinal não era impunemente que se viviam dois anos em permanente tensão. Mas não são os picos negativos que relevam. O importante são outros sentimentos bem diferentes que nasceram naquele caldo de cultura que parecia só poder alimentar desgraças.

É aquilo o que leva milhares e milhares de ex-militares, ricos e pobres, doentes e saudáveis, de esquerda e de direita, benfiquistas e sportinguistas, intelectuais e analfabetos, brancos e negros, a juntarem-se a cada ano em memória de dois anos que deviam ser mas não são, exclusivamente matizados de sofrimento e horror. Não vão pedir nada. Não esperam por nada. Vão só ver os Amigos, beber juntos uma cerveja, recordar outro Amigo já partido, chorar em conjunto e sem palavras uma lágrima em memória de si próprios, saborear um abraço com a força e a ternura da amizade em estado puro. Não vão ganhar ajudas de custo nem são transportados por autocarros disponibilizados. A muitos custa mesmo pagar o almoço sempre escolhido, por razões óbvias, em espaços adequados.

Mas vão. Vão sempre.

 A hemodiálise limpa o sangue. Aqueles encontros limpam a alma. Ainda bem que é tratamento não comparticipado… 

Por isso nos incomodam os aproveitamentos políticos dos movimentos de combatentes e nos desagradam alguns pedidos que camaradas, uma vez por outra, aproveitam para fazer. Perante o que temos visto acho que só existe uma solução. Enquanto veteranos não queremos nada com partidos e com políticos. As nossas relações são com a nossa consciência e com Portugal. Com a nossa consciência qualquer dívida se extingue, nos termos da lei civil, por confusão. Com Portugal não negociamos e, logo, não podem existir dívidas.

O respeito não se pede exige-se!

Treze anos de Guerra…centenas de milhares de combatentes…milhares e milhares de mortos…dezenas de milhares de feridos…

Portugal não ensina nas Escolas o nome de um único Herói desta guerra. É espantoso, inverosímil e vergonhoso. E faz-nos doer fundo.

Mas eu arranjo já dois e os meus Camaradas de todos os teatros de operações  indicarão, sem dificuldade, mais umas boas centenas ou milhares.

- Marcelino da Mata, Sargento Rodoviário, graduado em Alferes – Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Quatro Cruzes de Guerra.

“Cenoura”, Furriel Piloto, menino de vinte anos, morto em combate na Guiné em Abril de 1973. Não sei se tem alguma condecoração. Nem sequer sei o seu nome. Mas é meu Herói

Honra aos dois!

Só para que conste o meu Herói e Amigo Marcelino esteve preso depois do 25 de Abril, no Forte Militar de Caxias, Reduto Norte. Esteve à ordem não se sabe de quem, acusado não se sabe de quê. Fui falar com ele a pedido de militares amigos em posições de responsabilidade. Apareceu-me impecavelmente fardado e com todas as condecorações.

Nada sabia de política mas intuía o que se passava. Nem uma queixa, nem um lamento. Só me fez um pedido, ou melhor, um alerta. A sua mulher estava, grávida, num andar em Queluz ou Amadora, já não posso precisar, sem falar português e sem ter meios de subsistência. Felizmente a situação pôde ser resolvida com alguma rapidez, por militares do quadro da mais fina água, como era a esmagadora maioria dos que tivemos o privilégio de conhecer. Mas a vergonha do acto perdura. É nódoa que não se apaga.     

O meu Avô materno, que Deus tem, integrou as tropas expedicionárias em Angola na I Guerra.

O meu Pai, que Deus tem, esteve em Cabo Verde, também nas tropas expedicionárias, na II Guerra.

Eu estive dois anos na Guiné.

Em conjunto quase dez anos ao serviço da Pátria.

Portugal não nos deve seja o que for. Entre nós e a Pátria não há negócios.

Aliás, pouco demos comparado com quem lá deixou amputados os corpos e as almas, ou, como o nosso Herói “Cenoura”, que lá deixou tudo o que tinha, dentro do seu avião/esquife, no norte da Guiné.        

A guerra é sempre condenável, sem remissão. Mas as dificuldades extremas moldam caracteres e originam sentimentos únicos. E a guerra, sendo o paradigma da dificuldade extrema, produz entre os combatentes um fenómeno de agregação único que só termina na morte. Como vão os políticos entender isto!? Como vão eles lidar com valores que lhes são estranhos? Como vão eles compreender que existe Gente que só quer que os deixem em Paz? Que é capaz de dar tudo sem nada esperar em troca?

Até sempre camaradas! Até sempre irmãos! São vocês a minha Gente, aquela a quem dou, de olhos fechados e alma tranquila, o meu voto! E não é um voto qualquer, é um voto para a Eternidade!

 Em tempo:

 Diligências posteriores fazem supor, com grande probabilidade, que o meu Herói “Cenoura” foi o Furriel Piloto Aviador ANTÓNIO CARVALHO FERREIRA, natural da Paços de Ferreira. Foi abatido por um míssil Strella no norte da Guiné em 06.04.1973, a bordo da DO-27 que pilotava. O seu corpo terá sido resgatado por um grupo de combate de Pára-quedistas do BCP 12 (informações recolhidas em sítios de antigos combatentes e informações oficiais na internet).

 Ainda em tempo:

A Justiça manda que se diga não ser invulgar as Autarquias fazerem levantar um símbolo de homenagem aos seus Filhos caídos na Guerra do Ultramar. Não temos que agradecer a mais que justificada atenção, mas é decente referi-la. Com gosto o fazemos.

                         António Zêzere, ex-alferes. Parede, Agosto de 2010. 

 
 


CUFAR ANTES E DEPOIS

 
 

O Mundo pula e avança assim disse o poeta. Cufar faz parte do mundo, também pulou e para outra localização, provavelmente a mais adequada às actuais necessidades. Identificar o nosso "Cufar Antes" em algumas fotografias do "Cufar Depois", ainda é possível, basta correr a página e ver.             

É realmente simples graças a algumas fotografias gentilmente cedidas pelo camarada Adelino Ramos Sequeira,  aproveitamos para em nome da CCAÇ 4740, agradecer a sua amabilidade.

Adelino Ramos Sequeira comandou o 2º Pelotão da C.CAÇ.2797, a companhia que nós fomos render em Cufar.

 
 
Árvore do cruz. de Camaiupa Sinalização do pós guerra zoom de Sinalização do pós guerra
 
Gurita da porta de armas Caminho para a porta de armas Parte central da parada
 
Central helétrica Tabanca de habitação Tabanca de habitação
 

 
 

DO OUTRO LADO DO CUBIJà

 
 

As memórias das guerras de África constituem um espólio das gerações que as viveram e sofreram durante 13 anos.

Essas memórias sendo naturalmente individuais são, de igual modo, colectivas, património dessas gerações.

Apareceram, por oferta de uma Senhora Professora Universitária com actividades ligadas a África, algumas fotografias recentes do sul da Guiné que podem ser importantes para quem as conhece.

Assim a gestão do sitio da CCAÇ4740 entendeu publicar estas fotografias como homenagem aos camaradas do “outro lado” do Cubijã, alguns dos quais passaram por Cufar e outros que, não tendo passado, sofreram enormes dificuldades naqueles locais hoje calmos e belos.

A todos os Camaradas deste e do outro lado do Cubijã as nossas saudações.

Por amabilidade da autora, incluímos aqui uma ligação ao seu blogue, onde o seu conteúdo é deveras interessante senão importante. ÁFRICA DE TODOS OS SONHOS  

 

 

TOMBALI 2007

CCAC4942 Jemberem grupo 1

TOMBALI 2007

CCAC4942 Jemberem grupo 2

TOMBALI 2007

CCAC4942 Jemberem grupo 3

TOMBALI 2007

CCAC4942 Jemberem grupo 4

 

TOMBALI 2007

destacam. de cabedu

TOMBALI-2007

TOMBALI 2007

Abrigo em Gilege

TOMBALI-2007

TOMBALI-2007

TOMBALI-2007

TOMBALI-2007

TOMBALI RI0

     

 

AQUELES PARA QUEM A GUERRA NUNCA ACABAVA

 

 

Quando a fotografia do Alfa Nan Cabo gritou a sua presença no reagrupar da Companhia de Caçadores 4740, carinhosamente enviada pelo Alferes Nascimento do Pelotão de Canhões 5.7, tomaram o seu legítimo lugar nesta memória, aqueles para quem a guerra nunca acabava. Aqueles que de 1963 a 1974, naturais da Guiné, viveram ao nosso lado e muitas vezes combateram connosco sem licenças, sem fins de comissão e, muitas vezes, sem a consideração que a sua missão impunha. Sujeitos aos mesmos ou a maiores perigos que todos nós, multiplicados por vários anos, devem merecer a nossa estima, o nosso respeito, o nosso agradecimento e as nossas desculpas. A estima, o respeito e o agradecimento têm razões óbvias na consciência de cada um. As desculpas são devidas pelo pouco cuidado que houve para assegurar a sua presença no seu chão depois da independência. Hoje dir-se-á que se tratou dos famosos e inevitáveis danos colaterais. Maneira eufemística de mascarar comportamentos pouco desejáveis para não dizer pouco dignos. O Alfa é um bom exemplo. Ia em todas as operações, com todos os grupos, de todas as Companhias que passaram por Cufar. Ninguém dispensava o Alfa apesar dos anos de desgaste e sofrimento. Ninguém avaliava o que lhe ia na alma. Ninguém se preocupava com o queria ou não queria. Ninguém percebia que o Alfa estava a ficar velho e muito cansado. Não sei, se calhar ninguém sabe, o que sucedeu ao Alfa depois de 1974. Mas sei que lhe devo esta palavra de respeito profundo e de desculpas sentidas. Não faço ideia de como se chamava o senhor comandante do nosso Batalhão. Mas tenho a memória do Alfa Nan Cabo gravada na alma e honra-me reconhece-lo como camarada.

António Zêzere, Maio de 2008.

 
 


O MEU 25 DE ABRIL DE 1974

UM DIA ATRIBULADO PARA VIR DE FERIAS NO CONTINENTE

 
 

Preparar tudo para que não houvesse percalços foi fundamental, assegurara a viagem para Bissau, passaporte militar assinado e pronto a levantar no Quartel General, passagem de avião na TAP, marcada e bilhetes emitidos, toda a logística foi confirmada, vir de férias era então uma realidade.

Deu-se início ao processo físico, estávamos no dia 25 de Abril de 1974, a azáfama do dia começou bem cedo, mesmo assim, o sol já ia alto. A primeira parte da viagem foi de Cufar para Bissau, só foi possível numa LDG que iria passar ao largo no rio Combija, e esta impunha uma condição, não atracar no porto de Impungueda porém iria de motores parados ou seja, em marcha lenta.

Foi então necessário, activar a equipa de barqueiros para nos transportar até à LDG. Esta equipa, era constituída por dois Açorianos que devido à sua fisionomia, faziam, lembrar-me uma dupla cinematográfica Italiana o Franco Franchi e Ciccio Ingrassia, um alto o Peixoto, o outro  baixo o Couto mas ambos magros, só que estes, manejavam de uma forma perfeita como só um pescador sabe, a geringonça do barco de fibra a que chamávamos de sintexe e que servia para transporte de pessoas e mercadorias.

Após uma longa espera no porto de Impungueda no rio Cumbija, onde se fazia sentir a presença de um navio patrulha, apareceram finalmente ao longe os zebros com os fuzileiros que faziam a escolta ao navio e por fim, a tão esperada LDG.Era hora de entrarmos a bordo da LDG que para reduzir velocidade, tinha desligado os motores, lá fomos no "sintex", após embarcarmos, foi tempo de um agradecimento aos barqueiros, e de um olhar mais, ao porto de Impungueda, onde mais tarde voltei.

A viagem teve o seu início, sair dali era preciso e bem depressa pois o calor da guerra e a maré que estava na vazante, não eram propícios a passeios de barco no rio, mesmo assim, pude desfrutar de uma vista única rio abaixo, e em direcção ao mar lá fomos.

A dado momento e já em pleno mar, mas próximo de uma ilha o navio fundeou, fiquei preocupado, precisava de ir ao QG antes das 17:00 horas levantar o passaporte e os bilhetes de avião, a viagem estava marcada para o dia seguinte no aeroporto de Bissalanca.

Vi que uns marinheiros saíram em fato de banho e outros, em traje militar, tinham estes últimos a missão de fazer a segurança aos quem ia tomar o belo do banho, sem conseguir esconder a minha aflição, apressei-me a saber o porquê, se íamos embora e quando, tive uma resposta muito clara de um oficial do navio, tem muita calma amigo, houve um movimento militar em Lisboa e o comandante do navio já aderiu, agora vamos aguardar pela posição de Bissau, se aderir navegamos para Bissau caso contrario, navegaremos para Lisboa.

Escusado será dizer que quase entrei em pânico, imaginava como podia ser desagradável viajar naquele navio lotado de estivadores, eu não tinha qualquer reserva de alimentos ou água, enfim, o cenário era muito pouco propicio à retenção de adrenalina mas nada podia fazer, as horas passaram-se e bem devagar, sei que era noite quando zarpamos rumo a Bissau onde chegamos tardíssimo, a maré vazia obrigou-nos à utilização de uma escada de corda e que chamaram de portaló, de mala às costas lá fui escada acima, oh quanto e difícil equilíbrio foi preciso fazer, só eu e os outros que estavam na mesma situação sabemos.

Chegados a Bissau fiquei no clube de sargentos, ao nível da restauração até que se podia dizer de qualidade bem razoável, agora os dormitórios, para os passantes que até estavam folgados da vida do mato, eram execráveis, penso que assim ficam bem qualificados.

Depois de ter levantado os documentos necessários no QG, foi um corre-corre para o aeroporto, quando vai haver o avião? Não sabemos, não há previsão, bom, se bem me lembro, depois das diversas esperas no aeroporto e se a memória não me atraiçoa, a 29 de Abril lá apareceu um avião e voámos rumo a Lisboa.

Depois de chegar ao aeroporto da Portela só sei que apanhei um táxi, destino casa para ver a família que no meu caso, se resumia aos meus pais namorada e seus familiares. Confesso que não estava preparado para estes movimentos militares e políticos, tudo foi uma novidade ao ponto de se passarem os dias de licença que restavam, sem eu dar por isso. Agora que as coisas tinham mudado de rumo, estava a chegar a hora de voltar, faltavam 4 meses para o fim da comissão mas já era maior a tranquilidade, é que quando saí de Cufar, as coisas estavam bem quentes provavelmente ao rubro.Meus bons amigos, depois de voltar a Bissau, de novo no Clube de Sargentos a aguardar transporte para Cufar, entretanto deu para dar um passeio por Bissau e encontrar-me com o nosso companheiro Marques, furriel de transmissões. Uma ida ao Pelicano, passagem obrigatória para quem deambulava por Bissau, o Pelicano era um café que se situava junto ao porto de Bissau. Por fim o regresso a Cufar para o rescaldo da comissão.

Mário Oliveira – ex-furriel mecânico auto

Camarate, Abril de 2008

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


ASSIM FUI TENDO FÉ, PEDINDO A DEUS QUE ME AJUDE

 
 
É escrito com sangue e dor
Aquilo que vou falar
E com o maior fervor
Agora vou começar.

Com licença, meus senhores
Minha história eu vou contar,
Quando eu saí dos Açores
Para ir p’ró Ultramar.

Quando à Terceira cheguei
E segui para o quartel
Logo em mim recordei
A ilha de São Miguel.

Sentia uma coisa estranha
Sem saber compreender,
Coisa esquisita e tamanha
Difícil de entender.
-
O tempo se foi passando
Dias bem, dias mal,
E fomos continuando
Soldados de Portugal.

Passados dois meses
Lá fomos jurar bandeira.
Sofremos, mas às vezes
Parecia uma brincadeira.

Quando um dia na Parada,
À noite, o silêncio tocou,
Veio a notícia desamparada
Que o comandante contou.

Com umas folhas na mão
Más notícias veio dar
O nosso capitão
“Vão para o Ultramar”.

Dez dias mais
E fui a São Miguel,
Despedir-me de meus pais,
Eu, Eduardo Manuel.

Ó meu Deus, eu vou partir
Sem saber se isto é justo,
Qual o dia em que hei-de vir
Vou viver com tanto custo.

Quanto à nossa viagem
Melhor não podia ser,
Com espanto e coragem
Vendo o que tinha que ver.

Corrido cerca de um mês
Partimos para o mato,
Lá fomos para o Cantanhêz
Onde não parava um rato.

Na LDG embarquei
E beleza eu não vi,
Aquilo em que eu pensei
Foi na terra onde nasci.

Os dias se vão passando
Dão vontade de chorar,
As horas vou recordando
Passo a vida a disfarçar.

Na primeira operação
Que nós fomos fazer,
Deu-me um baque no coração,
O que veio a acontecer.

Quando os homens voltaram,
Três grupos da operação,
Logo as minas rebentaram,
Meu Deus, grande traição.

Passou palavra o primeiro,
Diz-me lá o que é que queres,
Vai chamar o enfermeiro
P’ra vir tratar do alferes.

Ó meu Deus, o que seria,
Quem serão os desgraçados?
Foram para a enfermaria
Três alferes estilhaçados.

Lá ficaram mutilados
Os infelizes sem sorte,
“Turras” serão apanhados
E todos irão à morte.

Que tristeza e amargura
Tanta vez aconteceu,
Morrer uma criatura
P’las mãos de um seu irmão.

Meus versos não levam cunho
Do que eu amo ou adoro,
Eles são o testemunho
Do que canto, do que choro.
Assim se passa esta vida,
Horas tristes a chorar,
Se a dor fosse esquecida
Eu poderia cantar.
Sofrer vinte e quatro meses,
Um soldado nada tem,
Agonias, tantas vezes,
Só Deus sabe, mais ninguém.

Eu sei que estes versos são
Uma coisa escrita ao leve,
São pobres, sem perfeição
Como a pena que os escreve.

Estive quase a dar um tiro,
Primeiro dia de Agosto,
Ó que noite de martírio,
Passei a noite no posto.

Meus olhos no firmamento
Horas e horas, ou mais,
Vieram-me ao pensamento
Os meus queridos pais.

No dia 9 de Agosto
Fomos p’ro mato arreados,
Vamos voltar com o gosto
De não sermos apanhados.

À saída do quartel
Eu pensei na minha cama
E pensando em São Miguel
Caí enterrado em lama.

Que será preciso mais
Estamos aqui como uns parvos,
Tiram-se os filhos aos pais
E fazem deles escravos.

Quando a manhã nasceu
Cercámos o inimigo,
Foi a Fé que me valeu
Porque Deus vinha comigo.

Lá por fora o dia inteiro
Sem qualquer resultado,
Perdidos num cativeiro
Entre capim alteado.

Ao quartel quando chegámos
Sem forças e cheios de fome,
Quase não falámos
Fogo dentro nos consome.
Querem homens para a guerra
A padecer fel e dores,
Queremos sair desta terra,
Queremos ir para os Açores.

Dia 7 de Setembro
Saímos ao anoitecer,
Eu não quero que me lembre
Tantos homens a sofrer.

Era tanta a nossa mágoa
E com tantos embaraços
Apanhámos forte água
Que pareciam estilhaços.

A 23 de Dezembro,
Ó mãezinha muito querida,
Eu nem quero que me lembre
Parecia o fim da vida.

À noite dois pelotões
Saíram todos armados
E com nove foguetões
Lá fomos nós atacados.

O fogo acabou
Sem nos causar mal,
Nossa Senhora salvou
Os soldados de Portugal.

Isto foi acontecido,
Queiram todos acreditar,
Quanto se tem sofrido
Nesta vida militar.

Que vida tão rigorosa
Que até nos faz pasmar,
Que vida tão perigosa
Soldados do ultramar.

Assim fui tendo Fé,
Pedindo a Deus que me ajude
P’ra que ao sair de Guiné
Leve a vida e a saúde.
 
 
de, Eduardo Manuel Simas
 
 
 
 
 
 

 

 

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Última revisão desta página a  17 de janeiro de 2017,